segunda-feira, maio 21, 2012

Dolce far niente?


Domingo. preguiça total. Absoluta! De-vas-ta-do-ra!

Às 7 o cão (melhor, Nina, a cadela) me acorda com seu latido choroso avisando que o rapaz que fará os serviços no quintal já chegou. O rapaz não tem preguiça, quer aproveitar todas as horas do dia.


A cama me reclama, mas a responsabilidade me chama. Este é o meu mantra de todos os dias...


O dia começa bonito demais e convida para um café completo na padaria. Não, não - tenho preguiça de trocar de roupa, tirar o carro da garagem e sair. Vou mesmo é fazer meu café, cereais, pão, lavar a louça. ajeitar a cozinha.

Vejo que acabou o mel. Gosto de mel com aveia pela manhã. Gosto também de mel no iogurte. Não há outro remédio senão ir à feira, onde encontro um de que gosto muito. Só de pensar em andar até lá já me volta a preguiça da manhã (será que não tem como me teletransportar?).

Banho tomado e café fresco me animam um pouco. Vou aproveitar e assistir a algum evento da Virada Cultural, que começou ontem.

Bacana, tem um festival de guitarras prestes a começar. Som de guitarra não deixa a gente dormir, faz a gente vibrar como as cordas do instrumento. Entre os números a audiência tem que esperar alguns minutinhos para a arrumação do próximo participante. Tenho tanta preguiça de esperar que decido fazer minhas compras antes.


Ir à feira é um passeio legal. Vê-se muita gente conhecida, a Estação Cultural tem uma bela mistura do novo e do antigo, a Praça das Artes Carlos Chiti compõe uma paisagem moderna.




A moderna arquitetura do Café Estação contrasta com a antiga gare, hoje restaurada


A miniatura da velha estação atrai a atenção de crianças e adultos

Na Praça das Artes Carlos Chiti as três esculturas de Orlando Marques representam as 3 Artes.



A escultura acima representa o Teatro.



Esta representa a Música...









... e esta a Poesia.

A velha mangueira observa o crescimento urbano ao seu redor
Os peixes na banca do vendedor me despertam a imaginação e o apetite. Mas cozinhar?! Pensar nisso já me dá preguiça.

Apesar de tudo, compro uns filezinhos e em casa olho prá eles sem muita coragem. Não seria melhor comprar tudo pronto? Bem, venço o desânimo pensando quão gostoso podem ficar grelhados e com uma bela salada ao lado...



E assim vou passando o domingo, burlando a doce inspiração para o 'far niente' e transformando-a nos bons momentos que compõem a vida.

Fotos: Bete Padoveze

quarta-feira, março 21, 2012

A melhoridade


Estou em férias - ou melhor, no fim delas. Férias é aquele período que você espera ansiosamente chegar para poder sentir a vida sem horários, sem correria. Quer dizer, essa é a idéia inicial, mas pode ser muito diferente.

Se você decidiu fazer uma bela e longa viagem turística, provavelmente vai ficar olhando no relógio para não perder o vôo ou o ônibus, para chegar nos locais de visitação na hora certa, para checar há quanto tempo está esperando na fila...

Se você decidiu descansar, pode ser que depois de uns três dias sem fazer absolutamente nada fique ansioso por um pouco de movimento, pressão, adrenalina.

Férias de verdade são as que a gente decide quando e como. Cada um tem um jeito de ser feliz, no seu próprio ritmo e passo. A não ser que você tenha mais que 50 anos, quando os nossos legisladores decidiram que você já não tem capacidade de decidir a respeito; assim, decidiram que, goste ou não, tem que tirar todo o período de direito de uma vez só. E se  eu achar que duas semanas de férias a cada semestre descansam mais do que 30 dias uma vez por ano... não posso, tenho mais do que 50 anos e não sei pensar por mim mesma....(rsrsrs)

Bem, passei dos 50, nem cheguei ainda à melhor idade e já tem gente tomando decisões por mim.

Afinal de contas, o que é a melhor idade? Será aquela fase em que pagamos meia entrada no cinema, nos passeios? Então 15, 18, 20 também são parte da melhor idade... Ou é quando pagamos meia entrada para usarmos o dinheiro da outra metade na farmácia?  

É a melhor idade aquela parte da vida em que temos tempo para passear e viajar, mas estamos cansados demais para isso?

O fato é que não tenho pressa de chegar lá - tenho pressa, sim, de chegar à melhoridade, aquele período da vida em que não importa o que fazer ou aonde ir, não precisa procurar, as férias acompanham você aonde você estiver...




Foto: Bete Padoveze, Gramado - RS, 16/03/12

terça-feira, março 20, 2012

domingo, março 18, 2012

Janelas Gaúchas


"Os olhos são as janelas da alma."

Casa em Gramado, RS
"A casa da ficção tem um milhão de janelas." (Henry James)
Casa em Gramado, RS
"Se queres que o sol entre na tua casa, abre as janelas." (Julio Maran)
Casa junto ao Museu Nelson Fioreze, em Gramado, RS
Nos meus passeios e andanças pelas cidades da serra gaúcha, fiquei encantada com a beleza das janelas - casas grandes e pequenas, lojas e hotéis, restaurantes e bares, todos tratam as janelas não apenas como uma abertura para iluminação e ventilação. Elas compõem a paisagem gaúcha de tal forma que tornam-se elemento de estilo e personalidade, acentuado pela profusão do verde, do colorido das flores e pela delicadeza das cortinas.

Casa em Gramado
"Tuas palavras são como janelas para teu coração." (Mateus 12:34)
Casa em Gramado
"Descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência." (Machado de Assis)

Há casas com janelas românticas:



Casas em Gramado
"Deus fecha uma porta, mas abre dez janelas."

Casa em Gramado
Os restaurantes capricham na criatividade:



Restaurantes no centro de Gramado

"Quando a fome entra pela porta, o amor sai pela janela." (provérbio mexicano)
Galpão da indústria de erva-mate em Gramado (ervateira)
"Uma casa sem livros é como uma casa sem janelas." (Horace Mann)
Casa em Gramado
 "O amor entra pela janela e sai pela porta."
Casa na colônia italiana em Gramado (Família Foss)
Há casas que resistem ao tempo, mesmo a duras penas:
Casa Centenária em Gramado, de Dona Elisabetha Ferrari, na Linha Bonita (imigração italiana)
Casa próxima à ervateira em Gramado (colônia italiana)
"Quando as portas se fecham, há sempre uma janela que se abre."

Construção no centro de Gramado
"Dois homens olham pela mesma janela. Um vê a lama. O outro vê as estrelas." (Dalai Lama)


Casa antiga próxima ao centro de Gramado
Há janelas de casas famosas, como o Castelinho Caracol, em Canela, cujas paredes do primeiro piso foram construídas de madeira local (araucária) sem pregos, apenas encaixadas (casa da Família Franzen, construção 1913-1915).


O interior da casa mantém o mobiliário da época
Janela do salão principal
Janela lateral do Castelinho Caracol
Janela de uma pequena cozinha
Um dos galpões da propriedade do Castelinho
A fachada da casa foi usada na novela A vida da gente para representar a casa da Iná, em Gramado, personagem de Nicette Bruno. E alí estou eu...

"A beleza está nos olhos de quem vê."

Fotos: Bete Padoveze, 12 a 17/3/12
Local: Gramado e Canela, RS

sábado, fevereiro 25, 2012

Gafes de morte

Estou lendo um livro muito divertido da Andréa Cordoniz, chamado “Clube das Asneiras” (*). É ótimo para ter uns momentos de relax e humor. É ótimo também se você fala em público e teme dar grandes foras, vexames, cometer gafes – lendo as asneiras de pessoas famosas e não tão famosas, é fácil ver que todo mundo pode facilmente escorregar no excesso de palavras, ou na falta delas. É inacreditável a capacidade que temos de botar os pés pelas mãos quando o que realmente queremos é impressionar. Se você quer ter certeza que estão prestando atenção no que você diz, é só falar uma asneira...
Lendo o capítulo das Asneiras Avoadas, lembrei-me de alguns clássicos de minha autoria, todos eles ‘de morte’, isto é, têm a ver com o assunto. Não que a morte seja engraçada – ao contrário, em todos os momentos meus sentimentos eram do mais profundo respeito à pessoa e à família.

Hoje rio das minhas ‘desventuras em série’ ...

Gafe no. 1 Quem é o morto?
Minha amiga Ângela me telefonou informando que nosso colega de classe do colegial/magistério tinha falecido. Ainda era jovem, e eu não o via há anos, sabia sequer o que fazia, onde morava. Em respeito à amizade entre estudantes, confirmei que iria ao enterro marcado para 17 horas.

Como era dia de trabalho, resolvi esperar o féretro (ainda se usa essa palavra?) no portão da empresa, já que o cemitério ficava ao lado, e acompanhar o sepultamento e tudo o mais. Na curva da rua, por volta de 17:15 já se via o cortejo. Fiquei à procura de minha amiga para juntar-me à ela, mas não consegui distingui-la. Talvez esteja num dos carros, pensei, e dirigi-me também ao cemitério, esperando vê-la na chegada. O cortejo chegou, entrou, o caixão foi colocado sobre a mesa para receber o último adeus dos familiares e amigos.

Eu, por dentro, um pouco sem graça, já que ela havia feito tanta questão de nossa presença e não tinha comparecido. Também não me sentia à vontade pois não conhecia ninguém presente. Enfim, fiquei na minha e aguardei.

O caixão foi aberto e dentro dele o morto num terno acinzentado, gravata, como manda o figurino para o além. Estatura não muito alta, cabelos pretos, pele morena, bigode espesso. Tudo conferia. Apenas eu não conseguia enxergar o Wilsinho naquela pessoa, após tantos anos. Incomodada mas sem saber o que fazer, entrei na fila, discretamente despedi-me do morto e tomei o caminho de volta.

Na saída, novo cortejo chegando, vejo minha amiga e outros ex-colegas acompanhando o enterro do Wilsinho, que foi atrasado por conta do anterior. Aberto o caixão, lá estava ele, cabelos pretos, pele morena, bigode, num terno não muito diferente do outro morto.

Até hoje fico lembrando da viúva do primeiro, uma moça que sempre encontrava no caminho para o trabalho mas que não conhecia. Vi que ela me olhou (uma total estranha no grupo) várias vezes durante a cerimônia – devia estar se perguntando donde eu conhecia seu marido...



Gafe no. 2 – Quem é a mãe?
Fui ao velório do pai de um amigo muito querido. Prestei meus respeitos ao morto, que conhecia apenas de conversas com o Marco Antonio. Esperei um momento mais adequado para dar os pêsames a ele, que estava muito consternado. Falei pouca coisa e dirigi-me à senhora ao seu lado para expressar minha solidariedade pela perda do marido. Assim que terminei, Marco Antonio me tocou levemente o braço e disse: Bete, essa não é a minha mãe...

Gafe no. 3 – De novo?
Outro enterro, desta vez não me lembro de quem, mas reuniu muitos conhecidos e ex-colegas. Como as oportunidades de rever pessoas são raras, gosto de dar uma palavrinha, perguntar como estão,etc. Lá encontrei uma amiga que não via há tempos, que tinha se casado e teve uma filha. Ao revê-la, já fui falando: Você demorou prá decidir, mas agora já está preparando o segundo bebê? Ela respondeu: Nada disso, é barriga mesmo...

Eu podia ficar de boca calada às vezes...




Gafe no. 4 - No hospital ou no velório?
Senti-me mal no trabalho (a pressão alta me atemorizando desde muito jovem) e o colega   Rogério dispôs-se a me trazer prá casa, a 50 minutos do trabalho. Como ele não conhecia minha cidade muito bem, fui indicando o caminho, ao mesmo tempo que informava os locais de destaque por onde passávamos. Resolvi ir direto ao hospital para ser medicada, cujo caminho passava em frente ao velório. Estava um pouco desconfortável por tirar um colega do seu trabalho, fazê-lo perder quase duas horas entre ida e volta. 

Chegando perto do velório, Rogério pergunta: É aqui que você quer ficar?

Ainda não, Rogério, ainda não.

Gafe no. 5 - Você aqui também?
Fui ao velório do pai de um amigo, o Antonio. Como sempre, encontrei muita gente conhecida. Conversa vai, conversa vem, um antigo amigo de meu irmão se aproximou do grupo. Comentei com ele, toda alegre: Puxa, faz tempo tempo que não vejo você! Até havia me esquecido que você já trabalhou com o Antonio. Apesar da hora, gostei de vê-lo! 

Ele respondeu: É que meu pai faleceu também e está na outra sala sendo velado.

Naquele dia fui a dois enterros.


Gafe no. 6 - Lugar garantido
Estava preparando um dossiê com dados da empresa, onde deveriam ser incluídos os currículos dos funcionários em posição-chave. Entre eles deveria estar o de um amigo com quem ia ao trabalho diariamente, vinte e cinco minutos de estrada, muita conversa, muitas risadas. Às vezes o deixávamos em frente à sua casa, como no dia anterior, quando encontramos sua mãe, Meire, varrendo a calçada.

Ao examinar seu currículo, observei com surpresa que o nome de sua mãe era na realidade Mary e o sobrenome de solteira era inglês. Liguei prá ele imediatamente e perguntei se ela era descendente de americanos, já que tivemos uma imigraçao de norte-americanos para Santa Bárbara depois da guerra da Secessão. A cidade ainda mantém a Fraternidade de Descendência Americana e o Cemitério do Campo, onde foram enterrados os primeiros imigrantes e onde hoje são enterrados os seus descendentes. Anualmente vou à festa da fraternidade e sempre visito o cemitério, que fica ao lado da área de eventos, e passo um tempo lendo os nomes nas lápides. Puro interesse histórico.


Bem, voltemos ao meu amigo. Sim, ela é descendente de americanos, respondeu ele.

E - perguntei - por que ela não está enterrada no Cemitério dos Americanos?

Ele respondeu calmamente: Por que ela ainda não morreu, Bete...


(*) Blog da Andréa Cordoniz: http://www.exorcizesuaalmagorda.blogspot.com/

Fotos: Bete Padoveze - Cemitério do Campo (Cemitério dos Americanos) - Santa Bárbara d'Oeste  2007